> Trajecta Blog :: Quem decide sua próxima compra online?

Antes que você diga que é 100% você, não esqueça que seus dados pessoais — que a LGPD realmente coloca novamente você como legítimo proprietário — podem nesse momento estarem sendo processados pelos mais avançados modelos e algoritmos nos mais variados e não menos avançados servidores de mídia programática no mundo para que, na verdade, essa resposta seja diferente. E cada vez menor. E cada vez com menos impacto de suas próprias decisões.

— 90%? 50%? 10%? etc.?

Bem, a resposta exata irá depender de uma série de fatores, que levam em conta a capacidade de os modelos preverem seu comportamento.

— Mas isso não foi sempre assim?

Não, e é justamente nesse ponto que legislações que protegem a privacidade de dados pessoais, e que principalmente determinam a clareza do tratamento dos dados e de sua finalidade, podem de fato proteger a liberdade das pessoas, de inclusive determinarem de fato suas decisões, ao invés dos sistemas de decisão automática.

Ou seja, a legislação, como sua precursora GDPR, na Europa, pode ser vista como uma forma de buscar proteger as pessoas contra o avanço da tecnologia, cada vez mais competente em traçar o comportamento de forma totalmente individualizada e previsível. E o momento que essa nova realidade se apresenta está diretamente relacionado à evolução da tecnologia de machine learning, principalmente no campo de deep learning, que emula as redes neurais naturais em artificiais, buscando criar modelos cada vez mais similares aos das pessoas, e de uma forma cada vez mais competente, partindo unicamente de dados e seu cruzamento.

Não por menos, o compartilhamento de dados das pessoas entre diversos sistemas, ainda mais quando não há controle preciso disso, pode levar a um impacto cada vez mais crescente nas suas decisões, a ponto de, os mais pessimistas e entusiastas da tecnologia suporem que, no futuro próximo, seu poder de decisão será de praticamente 0%.

E o equilíbrio, em tese, que pode mudar esse cenário, são as multas milionárias que já acontecem hoje na Europa, por conta da GDPR, atuando diretamente nas causas e efeitos dessas decisões, principalmente quando elas são automatizadas, e estão levando em conta, prioritariamente, o retorno aos stakeholders ao invés da liberdade de escolha dos seus clientes finais, e, evidentemente, o lucro das organizações com melhores sistemas, com potencial cada vez maior de determinarem as escolhas de seus clientes.

E, na prática, os legisladores enfrentam o desafio de um cenário de determinação e precisão cada vez mais absoluta nessa área, onde a tecnologia de informação e de comunicação abre as portas para as máquinas de fato decidirem pelas pessoas sem elas autorizarem isso, com arquiteturas cada vez mais sofisticadas para determinarem o comportamento e as decisões.

Mas penso que esse deve ser um esforço não apenas dos legisladores, mas de todos os times de tecnologia, marketing, governança e gestão nas organizações, em busca do justo equilíbrio das liberdades pessoais, acima de outros interesses que possam um dia levar a uma situação irreversível, como tantas vezes vemos nas obras de ficção científica, onde a máquina assume o controle nefasto de nossas ações, característico do modelo e estado futuro de singularidade tecnológica, proposto por muitos teóricos e cientistas na área de Inteligência Artificial.

Pelo menos, penso que não devemos subestimar o potencial da tecnologia em seguir esse caminho, pois, como disse Marvin Minsky um dia, se perdermos o controle, e se tivermos sorte, o melhor que podemos esperar é que as máquinas, e os robôs, possam decidir nos manter como seus animais de estimação!

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Por Rogerio Figurelli em 25/05/2021
Senior IT Architect, Engineer, Expert & Solutions Consultant
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